Battisti fala sobre Barroso, reencontro com filho e rotina em prisão na Itália

Ex-terrorista coloca ministro do STF como uma das pessoas 'mais honestas e corretas' que conheceu

Porto Velho, RO - ​Dos brasileiros que o ex-terrorista Cesare Battisti rememora na correspondência com a reportagem, o mais digno de elogios é o atual ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso, seu advogado no processo de extradição que tramitou na corte durante o governo Lula (PT).

Alguns anos depois, Barroso seria indicado para o tribunal pela então presidente Dilma Rousseff (PT), sendo aprovado em sabatina no Senado. Battisti o coloca como uma das pessoas "mais honestas e corretas" que conheceu.

"Ele tem uma dignidade e ética raras. Nunca deu um passo para trás, nem mesmo sob ameaça do Senado no momento de sua nomeação para o STF. É democrático e um progressista de convicção. Ele ficou profundamente decepcionado com as falsas promessas do PT e de Lula, promessas que viraram jogos de poder. Não deve nada a ninguém e segue os princípios de justiça social que são os mesmos dos meus."

O ex-terrorista italiano Cesare Battisti, ao ser preso, em 2019 - Alberto Pizzoli/AFP

Aos 67 anos e com poucas chances de aliviar –no curto prazo– a pena de prisão perpétua, Cesare Battisti concede uma entrevista pela primeira vez desde que voltou à Itália, há três anos e meio. A Folha a publica com exclusividade.

A série de correspondências se iniciou em abril de 2021, e continua até os dias atuais. Houve uma tentativa de entrevistá-lo pessoalmente, mas o encontro não foi autorizado pela penitenciária. Esta é a última de três reportagens sobre a entrevista do ex-terrorista.

A defesa de Battisti no processo que tramitou no STF, encerrado em 2010, é usada pela militância bolsonarista para atacar Barroso e foi até citada por Gilmar Mendes, seu colega ministro, num barraco público entre eles no Supremo, em 2017, quando este se referiu ao outro como "advogado de bandidos internacionais".

Em 2013, ao ser sabatinado pelos senadores para o STF, Barroso afirmou que voltaria a defender Battisti, caso necessário, pois a Itália o transformou "numa espécie de símbolo de um acerto de contas com o passado".

O tal acerto de contas com o passado ainda é um tema presente para o preso e para a Itália de uma forma geral.

Desde que voltou ao país em janeiro de 2019, após ter escapado em 1981, Battisti passou por presídios de segurança máxima na Sardenha, na Calábria e encontra-se atualmente em Ferrara, na Emilia-Romagna, a melhor das estruturas onde ficou.

Em março deste ano, ele obteve a primeira vitória no Judiciário, ainda que parcial. Sua defesa argumentara que era impróprio o encarceramento numa unidade de segurança máxima (como é em Ferrara) de uma pessoa que não representa "periculosidade social", detido por crimes que ocorreram no século passado.

O Judiciário negou com base na "finalidade subversiva" das ações, mas abriu possibilidade para eventuais encontros de trabalho na prisão, já que continua o ofício de escritor. Também poderá usar o telefone (já permitido) de forma mais frequente.

Nascido em Vassouras (RJ), Barroso se formou em direito, fez doutorado e deu aulas na UERJ Pedro Ladeira - 31.ago.18/FolhapressMAIS

O EXTREMO

Na Itália, os poucos defensores de Battisti situam-se à extrema esquerda. Os partidos da esquerda, inclusive os herdeiros do Partido Comunista Italiano, sempre foram favoráveis à extradição e ao cumprimento da pena —dele e de outros fugitivos.

Praticamente todas as forças e atores políticos desse campo sempre criticaram o PT, Lula e de modo especial o então ministro da Justiça, Tarso Genro, que concedeu refúgio alegando um "fundado temor de perseguição política por suas opiniões" e considerando que a integridade do italiano estava em risco caso voltasse ao país.

Esse debate ressurgiu na Itália no ano passado, durante a greve de fome em Corigliano Rossano, penitenciária conhecida por abrigar terroristas islâmicos.

"Todos os italianos ou europeus acusados de terrorismo doméstico estão em áreas normais. Sou o único que não é ligado ao terrorismo islâmico, isso significa ficar totalmente excluído de qualquer atividade fora das celas, inclusive do banho de sol. Nunca iria imaginar que na Itália existia ainda semelhantes condições de cárcere", comentou em abril de 2021.

Ele continuou: "A área ISIS de Rossano é um verdadeiro inferno, uma tumba. Fui colocado ali de propósito, nas mãos de um comandante sádico que não perdia ocasião de recordar-me que fui enviado para apodrecer até o final dos meus dias".

A greve de fome repercutiu em especial entre pessoas insuspeitas de serem simpáticas a ele.

A tal "vingança de Estado" foi citada por Mattia Feltri, articulista do jornal La Stampa e filho de um dos jornalistas mais conservadores da Itália: "Contra a lei e contra a lógica, o Estado italiano não parece ter por Battisti uma urgência de justiça, mas sim uma urgência de vingança. Nada justifica a segurança máxima para um homem quase septuagenário condenado à prisão perpétua por homicídios cometidos há mais de quatro décadas, mas imagino que invocar um tratamento justo e digno para um homem detestado por todos seja um pouco irrealista".

Feltri citou personalidades que por muito tempo foram contra a extradição do italiano e de outros fugitivos por terem críticas ao sistema judiciário e prisional: "Nós ficamos indignados, mas eles tinham razão".

O FUTURO

Cesare Battisti segue em frente, como diz, com a força do inconsciente.

A melhor notícia se materializou no início do ano com a mudança para a Itália de seu filho brasileiro, de 8 anos, e a mãe dele, Priscila —ele também tem outras duas filhas, que vivem na França, e já é avô.

A criança e Priscila, uma professora que conheceu o italiano em Cananeia, no interior de São Paulo, em 2012, estão desde fevereiro em Paganico, na Toscana, na casa do irmão mais velho de Battisti. Em março, o garoto reencontrou o pai, com quem não tinha tido contato físico desde outubro de 2018. Em Ferrara, ela e o filho podem visitá-lo uma vez por mês.

"Foi o mais bonito presente que poderia receber", disse Battisti, dizendo que o filho "é um amor, se comportou com naturalidade, parecia que me deixou no dia anterior". "Mérito da mãe, que soube manter viva a imagem paterna. Estou vendo-os com frequência e fazemos projetos."

Ele conta que a rotina na prisão, com leituras, escrita e exercícios físicos, deixa pouco tempo para descansar.

"Desde quando estou preso, escrevi três romances e um tanto de relatos. Tendo cumprido os primeiros dez anos de prisão, posso começar a pedir a redução da pena e talvez no futuro ninguém mais se recordará da inutilidade dessa prisão tardia."

Fonte: FOLHA

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